26 de janeiro de 2015

Todos os caminhos levam a Sé

Missa campal realizada em 1937 que mostra os primeiros alicerces daquela que seria o marco da grandeza do centro da cidade.
Seria impossível contar quantas pessoas passam diariamente pelo centro de São Paulo e que de algum modo visualizam a Catedral que ali se encontra. Réplica de um estilo antigo que predominou na Europa, a Catedral, não somente no nome, substituiu a igreja relativamente simples que fora construída na época colonial e demolida no início do século XX para que no local um pouco mais acima erigir-se um monumento digno da cidade que crescia vertiginosamente. Casas, prédios e ruas desapareceram para que a arquitetura da nova igreja ou catedral fosse grande o suficiente para abrigar o maior número de praticantes católicos e ao mesmo tempo ser reconhecida como o marco da cidade. Lançados seus alicerces muitas foram as campanhas da Igreja para financiar sua construção que no exagero de detalhes refletia inconscientemente a diversidade de seu povo em cultura social e econômica. Macacos, araras e símbolos tropicais substituíram gárgulas e reis europeus. Alguns nichos, mesmo depois de inaugurada, permanecem vazios querendo talvez mostrar que seu estilo é inacabado, diferencial ou característica de uma cidade que muda radicalmente a cada década. Neste aspecto é uma construção como querendo acompanhar essas mudanças com o elemento do novo ao redor, que não preservado, encontra-se em risco de perder suas características originais. A cidade é assim, grande, austera pomposa e ao mesmo tempo vazia de consciência histórica motivada principalmente pela inercia de seus habitantes que inconscientemente transitam pelas mesmas trilhas de seus ancestrais índios e afrodescendentes.

Os caminhos da cidade levam à Catedral da Sé, que esperemos, volte a simplicidade de uma missa dominical em que todos se reconheciam como paulistanos conscientes de suas origens.

Texto: Iomar Travaglin
Projeto Digital: Tatiane Cornetti



23 de novembro de 2014

Made by... Feito por brasileiros... Para quem?

Texto: Iomar Travaglin
Fotos: Tatiane Cornetti


Durante quase cem anos de sua existência, o complexo do Hospital Matarazzo recebeu milhares de pessoas entre, médicos, enfermeiras, pacientes (pessoas que se restabeleceram pessoas que ali vieram a nascer e outras que ali tiveram seu ultimo suspiro).  Histórias de uma cidade dentro da própria metrópole. Quando desativado como centro de saúde no final dos anos de 1980 foi abandonado e ainda foi palco de atividades artísticas por grupo de teatro que ali realizou um desempenho elogiado e inusitado.  Também artistas anônimos em seus muros e paredes realizaram pinturas e pichações, mas, nada se compara com a exposição Made By... Feito por Brasileiros. Quase um Louvre pela extensão o complexo se assemelha ao monumento francês por salas e mais salas, antes direcionadas a saúde, exibindo hoje obras de arte e efeitos especiais. O que talvez as pessoas não saibam é que o próprio Louvre, antes de ser o centro cultural de hoje, já esteve decadente gerando protestos de intelectuais como Voltaire que em outro contexto acreditava que aquele era antes de tudo um monumento francês apesar de sua origem aristocrática.  Sem entrar em devaneios de comparação, a pergunta maior que se faz é a seguinte: 



O Hospital Matarazzo entregue a sua própria sorte

Falta de cuidado com nosso patrimônio (adaptação no piso mal realizado) 

O que será do complexo Matarazzo depois dessa exposição? Salas inteiras foram transformadas em piscina com infiltramento de água propositado, sua bela escadaria de mármore imersa em água malcheirosa; a estatua do Conde Matarazzo, seu fundador, quebrada; seus outrora jardins devastados e sua capela, transformada em palco herético de uma instalação em meio à representações religiosas de culto católico. Se todo o espaço neste momento da Made by... Transpira decadência e abandono, como a própria exposição evidencia, será que este lugar histórico será preservado? Mesmo com a proposta de construção de um luxuoso hotel e centro de compras, a ausência de uma maquete, detalhe enigmático, o absurdo do destombamento e outras questões nos rementem ao que parece inevitável: mudança drástica da estrutura arquitetônica, ou o que é pior, demolição.


Escadaria em mármore imersa em água malcheirosa



Salas inteiras foram transformadas em piscina com infiltramento 

O descaso da história de um lugar importante na nossa cidade

Exagero? Refletindo sobre o dinheiro que foi gasto para confecção da mostra, a empresa, não brasileira, o apoio de patrocinadores de elevado apelo financeiro, e, irônico ‘feito por brasileiros’ remete a triste constatação do lucro e suas consequências mercadológicas.  Quem conheceu o Hospital quando de seu verdadeiro proposito e atuação e tem respeito pela nossa cultura não deve levar a culpa pelo crime da demolição ou desfiguração pelas mãos de pessoas que infelizmente não entendem que progresso pode ser a revitalização do que é antigo.

Concluímos que a História e as Culturas mundiais possuem um museu como o Louvre porque na França, não aqui, existe verdadeiro domínio de sua identidade e, para isto, conta com apoio de sua classe intelectual e artística.


Jardins devastados em função da exposição



Capela, transformada em palco herético
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Carta aberta realizada pela associação PreservaSP sobre o Hospital Matarazzo www.preservasp.org.br/carta_aberta_hospitalmatarazzo


  

3 de julho de 2013

Terra Bruta

Por: Rodrigo Ruiz

John Ford devia um favor a Harry Cohn, o maioral da Colúmbia, um favor que ele pagou meio que à contragosto, diga-se de passagem. O velho Ford era temperamental. Mesmo contra sua vontade, assumiu a tarefa e acertou a mão em mais este western, digno de sua longa filmografia.

Trata-se de Terra Bruta (Two Rode Together -1961), uma página dramática da colonização do Oeste. Para Peter Bogdanovich, no livro que ele fez sobre John Ford, o diretor diz que não gostou do roteiro escrito pelo seu colaborador de longa data, Frank S. Nugent, baseado no romance Comanche Captives, de Will Cook.

Azar de John Ford e sorte nossa. Entretanto, os elementos fordianos estão ali: a construção da civilização norte-americana, a influência da religião nos usos e costumes, as dificuldades inerentes a essa sociedade em desenvolvimento,etc,etc.
Tudo ali traz a assinatura do mestre. Tudo ali aparenta uma perfeita sintonia com os westerns anteriores do diretor e apresenta um novo aspecto em contraposição àqueles: a visão mais humanista do índio.

No filme, um velho delegado (James Stewart) é contratado contra sua vontade (olha aí a semelhança curiosa com a situação de Ford em relação ao favorzinho devido a Harry Cohn) para auxiliar o exército na busca de mulheres e crianças brancas sequestradas pelos índios comanches.

O delegado Guthrie McCabe é interpretado pelo sempre ótimo James Stewart (em sua primeira atuação sob a batuta de Ford) que dá uma certa dose, bem equilibrada por sinal, de comicidade e drama à personagem. Stewart foi um daqueles raros talentos que podia ir de um extremo ao outro sem prejudicar sua atuação.


McCabe detesta a idéia de deixar a vida boa de delegado numa cidadezinha pacata onde ele detém 10% de todos os negócios ali, mas acaba aceitando como uma forma de fugir da influência da noiva mandona e intrometida, Madame Belle Aragon (Annelle Hayes).

Na jornada que ele irá empreender, McCabe terá a companhia de seu amigo o tenente Jim Gary, interpretado por Richard Widmark.


A química entre os dois atores está muito boa e fica evidente em uma das mais legais cenas do filme, quando ambos, seguindo viagem para o forte, sentam-se para descansar à beira de um riacho e empreendem um diálogo divertido. A câmera não se movimenta e fica durante alguns minutos vidrada em ambos.  É um cena bem simples, mas carregada de criatividade, da criatividade fordiana.

Aliás, bons diálogos não faltam ao filme, por exemplo nas cenas iniciais, quando o atendente do saloon, Jesus, aproximasse do delegado McCabe, que está sentado sonolento numa cadeira no alpendre, para levar-lhe uma cerveja, e lhe diz:

- Señor, a viúva Gomez deu à luz um menino esta manhã.
- Parabéns para a viúva Gomez!
-Mas, señor, faz mais de um ano que enterraram o señor Gomez no cemitério paroquial!
- Bem, tem mortos que não conseguem ficar num mesmo lugar.

E pensar que Ford torceu o nariz para o roteiro de Frank Nugent...
Terra Bruta traz referências do filme Rastros de Ódio, a principal é justamente a questão do rapto de mulheres e crianças pelos índios, fato esse que fora muito bem mostrado naquele grande western de 1956 estrelado por John Wayne e Natalie Wood.

Henry Brandon, que atuou em Rastros de Ódio como o chefe comanche Scar, aqui interpreta uma personagem real, o comanche Quanah Parker que era filho de Peta Nocona, um comanche e de Cinthia Ann Parker, mulher branca, raptada aos nove anos de idade pela tribo de Nocona.

O desespero das famílias dos colonos atingidas por esse flagelo é mostrado de modo sensível no filme. Homens e mulheres que se deslocam de grandes distâncias, gastando talvez todo o seu dinheiro para encontrar seus filhos e parentes seqüestrados.

Esse aspecto central do filme traz algumas cenas memoráveis, por exemplo, o jovem comanche Lobo Corredor, um menino branco que fora seqüestrado na infância, que é objeto da troca por rifles e levado por McCabe e Jim Gary para seus supostos pais, decorrendo disso uma tragédia e a esposa de um pregador fanático que vive há anos como uma das mulheres de um chefe índio e que, envergonhada por sua condição, pede a McCabe e Jim para que contem a sua família verdadeira que ela está morta.

Ford focaliza a questão da inculturação dos brancos obrigados a conviverem com os índios, tornando-se como eles. Eles acolhem os costumes indígenas, mas não se esquecem completamente de sua real identidade, ou ao menos, lembram-se de alguns detalhes de sua vida anterior.

A única mulher que retorna à convivência da sociedade branca é a mexicana Elena de La Madriaga, interpretada pela formosa atriz Linda Cristal. Seu retorno é amargo, pois a mesma é submetida à humilhante sessão de perguntas preconceituosas das mulheres dos oficiais do exército durante um baile. Ela perde o baile, mas ganha o coração do delegado.

O filme é o segundo dos quatro westerns de John Ford nos anos 60 e apesar de ser pouco valorizado pelo mestre, traz em si os elementos do revisionismo fordiano que modificaria sensivelmente sua obra naquele período, culminando com o seu derradeiro western, de dimensões épicas, Crepúsculo de Uma Raça (Cheyenne Autumn-1964).

Terra Bruta surgiu em uma fase de decadência para os filmes de faroeste que seriam atropelados pelo advento do spaghetti western na segunda metade daquela década, entretanto, ainda traz a essência e a beleza fascinantes do que se costumava considerar o cinema americano por excelência. E sem dúvida nenhuma, John Ford foi seu principal cultor.


Ficha Técnica:
Terra Bruta (Two Rode Together, 1961)
Direção: John Ford
Roteiro: Frank Nugent (adaptação do romance de Will Cook)
Elenco: James Stewart, Richard Widmark, Shirley Jones, Linda Cristal, Andy Devine.


Rodrigo Ruiz, paulistano de nascimento, desde 2001 mora em Itapira. Apaixonado por livros, trabalha em biblioteca e, nas horas livres, pesquisa sobre a Revolução Constitucionalista de 1932. Suas paixões são Cinema, História, Quadrinhos e Música.



6 de janeiro de 2013


Carlota Joaquina, Princesa do Brazil,
entre a ficção e a História
.


Por Iomar Travaglin


“Fiz um filme pretendendo atingir todas as platéias, de todas as idades [...] O cinema, há dois anos, acabara no Brasil por má administração dos orçamentos e porque havia pessoas que só se propunham a filmarcom orçamentos milionários. Meu objetivo com Carlota Joaquina foi mostrar que dá para fazer cinema no Brasil. Que tem público, sim, e que os filmes se pagam, sim. Escolhi um tema histórico porque sempre fui apaixonada pela História. E o cinema é uma linguagem forte, que pode trazer, além de entretenimento, também conhecimento. Acredito que a História é a ficção do Homem. É o grande romance da humanidade. Ela nos diz que tudo está em movimento e que o que importa não é um homem, personalidade histórica, ou um grupo de pessoas. O que é importante é o Homem – isso a História nos diz e pode ensinar mais efetivamente por meio do cinema. Os homens morrem, o Homem não. Um povo só pode compreender o seu presente a partir do conhecimento do que foi o seu passado. Com essa idéia na cabeça é que realizei ‘Carlota Joaquina – Princesa do Brazil”
 Carla Camurati (Carla Camurati: 1996)

 Produzido em época conturbada da trajetória política brasileira, o filme da diretora e atriz Carla Camurati,permanece emblemático por representar uma história verídica, baseada na vinda família Real Portuguesa ao Brasil em 1808, e por ser, naquele momento a produção que mais trouxe publico ao cinema, retomando como mídia aos novos tempos da produção Nacional. Foi aclamado pela critica neste quesito, mas em nenhum momento se coloca como obra de valor aos historiadores que se posicionaram contra em muitos aspectos. Bem produzido e muito bem interpretado é verdade, mas a pergunta deve ser feita nos sentido de a autora se referir como estudiosa e pesquisadora em História. Sabendo disso apresentaremos as seguintes questões: quem foi Carlota Joaquina e o que seria verdade nesta produção que mostra de forma tão caricata a figura de conhecidos personagens históricos já que a diretora diz na entrevista acima que o cinema pode mostrar conhecimento?
O Estudo de gênero ainda é recente no Brasil e muito que se sabe de conhecidos e mais precisamente conhecidas personagens históricas de nossa Historia vieram de relatos biográficos nem sempre favoráveis as pessoas implicadas. Caso direto de Carlota Joaquina, mulher de temperamento forte e que impôs muitas das regras quando se viu com poder de rainha de Portugal e do Brasil. Carlota Joaquina de Bourbón era filha mais velha de Carlos IV e de Maria Luiza de Parma, reis espanhóis descendentes de Luis XIV de França pelo casamento deste com Maria Teresa de Áustria última herdeira do rei Áustria/Habsburgo/Lorena Felipe IV. A Espanha, ao tempo de Carlota, estava condicionada a França como cultura e sua corte era mais francesa do que propriamente espanhola, e,neste contexto é errado constatar que se dançava o flamenco como apresenta o filme. Uma corte alegre sim, mas com graves problemas políticos na autoridade exercida pela Rainha Maria Luiza que impunha ao seu fraco marido, Manoel Godoy seu amanteque como primeiro ministro levaria a Espanha a favor das conquistas de Napoleão Bonaparte. Infanta de Portugal pelo seu casamento com Dom João, segundo filho de Dona Maria I e posteriormente Rei e herdeiro pela morte do irmão e loucura da mãe, Carlota desde muito cedo impôs sua autoridade e inteligência; fatos comprovados historicamente pela grande quantidade de registros em cartas e documentos. O Filme foi baseado em um livro biográfico publicado em 1968 por João Felício dos Santos com o titulo de Carlota Joaquina, a rainha devassae,adaptado pela diretora, que, como dito, realizou “ampla” pesquisa para compô-lo. A narrativa mesmo literária foi contemplada com a inteligente narração de um Escocês para uma menina que no filme faz a rainha quando menina, e soa até como um conto de fadas. As referencias históricas prováveis foram concisas quanto ao caráter da rainha, aliás, única rainha Brasileira, as outras foram imperatrizes.O historiador Oliveira Lima historiador afirma no livro 1808 de Laurentino Gomes que D. João...

 “não tinha grande certeza da paternidade dos últimos filhos”E que Carlota Joaquina foi “... traidora como cônjuge, conspiradora como princesa, desleal sempre e sem interrupção”.  (Gomes, Planeta, 2007, pg 165)

Carlota conspirou politicamente contra o marido, é verdade, mas não teria razão ao fazê-lo? Historiadores acreditam que Dom João teria sido vitorioso numa disputa com Napoleão se permanecido em Portugal, já que, segundo se constata pelo próprio Napoleão em suas memórias, a Guerra Peninsular, invasão de Espanha e Portugal, foi fatal ao General francês, pois todos os seus problemas começaram ai. Um desses problemas foi a escolha do comandante da invasão Jean AndocheJunot. Ao adentrar em Lisboa o exército francês encontrava-se faminto e mal administrado por Junot, e este não contava com a resistência do povo lusitano e espanhol.Se não tivesse sido impedida por Dom João na reivindicação de sua herança espanhola no Prata, Carlota poderia ter  fortalecida a situação da Espanha e por tabela Portugal já que esta teria uma distante corte situada na América. O que pode ter acontecido é que João, no fundo, sabia que a esposa, inteligente e sagaz, poderia ludibriá-lo e, por habilidade, usurpar-lhe o poder. Também havia suspeita de sua infidelidade como esposa, o caso com Fernando Carneiro Leão que aparece no filme de forma caricata e ao som de Tico Tico no fubá de Zequinha de Abreu apresenta,no filme, que a Rainha tenha enfim aceitado a miscigenação, mas, na verdade registros históricos apresentam Fernando como branco, filho de Ana Francisca Rosa Maciel da Costa, Baronesa de Goytacases que anos mais tarde estaria envolvida na expulsão do teatro São Pedro de Domitila de Castro, amante oficial de Pedro I. A mulher de Fernando, Gertrudes, foi morta de forma misteriosa e o crime, nunca solucionado, atribuído a Carlota. Uma provável versão do fato é que Gertrudes teria dito em alto e bom som durante um encontro social o que pensava da rainha e isto selou seu destino encontrando pela frente pessoas que poderiam se beneficiar de favores reais, o que era comum à época. Uma fonte por muito tempo aceita sobre as condutas da rainha foi a do catalão e seu ex secretario real Jose Presas que a um só tempo teria sido secretário, homem de confiança e conspirador. Presas já havia sido julgado e culpado pela campanha de apoio ao partido inglês no Prata e fugido ao Rio de janeiro. Iria por indicação de Sidney Smith, trabalhar com Carlota. Já na Espanha quando do retorno da família Real teria conseguido um cargo publico, ainda por influencia da rainha de Portugal, caiu em desgraça por escrever panfletos contra a monarquia. Fugido novamente, e sem recursos, resolveu escrever um livro intituladoMemórias Secretas de Carlota Joaquinana qual haveria informações intimas, suspeitas e principalmente fofocas sobre a realeza. Em carta a soberana disse que o livro seria destinado a Dom João se esta não lhe pagasse...

“... uma pequena resposta, acompanhada de uma letra de cambio de modesta quantia, teria sido suficiente para que eu me calasse”. (Gomes, Planeta, 2007, pg 167)

Carlota, no entanto não chegou a ver o livro; morreu em 1830, quando este estava sendo impresso na França. Saído o livro Carlota teve sua vida devassada e a isto se juntou aquilo que a lenda já consumara: adultérios, conspirações e traições sendo que algumas informações são historicamente comprovadas, outras não. Por se recusar a jurar a constituição portuguesa escreveu uma carta a Dom João onde mostrava sua teimosia e obstinação:

“Uma pessoa de bem não se retratava... Serei mais livre em meu desterro do que vós em vosso palácio. Minha liberdade pelo menos me acompanhará. Minha alma nunca se escravizou nem nunca se humilhou na presença desses rebeldes vassalos, que ousaram impor-vos leis e esforçaram-se para compelir-me a prestar um juramento que a minha consciência repelia”. (Gomes, Planeta, 2007, pg 168)

Por isto foi exilada e perdeu o titulo de rainha. Hoje pelas suas cartas vemos outra Carlota, seguidora de direitos dinásticos de mando que, talvez, poderiamsermais bem aproveitados. Na partida de Portugal ao Brasilum detalhe hoje conhecido, mostra bem sua preocupação pelo poder. Enquanto Dona Maria I, já insana, dizia a todos para não correr, pois, estavam todos como “... a fugir”, Carlota separava os filhos nos navios com a idéia que se um naufragasse haveria quem herdasse a coroa. Independente da licença poética, e é claro das adaptações, Carlota também mereceum filme biográfico sem a preocupação de agradar e divertir, que nos apresente fatos comprovados. O Filme Carlota Joaquina, princesa do Brazil ai se encontra e merece ser visto pelo que desperta, porem a pesquisa já da mostras de como podemos fazê-lo, a meu ver, muito mais interessante.

Bibliografia
GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. São Paulo: Planeta, 2007.

Filme
CAMURATI, Carla. Carlota Joaquina: princesa do Brasil. São Paulo: 1994. 1 FVD (100 min): son., color. Color Elenco: Marieta Severo, Marco Nanini, Ludmila Dayer, Brent Hieatt, Maria Fernanda, Marcos Palmeira, Eliana Fonseca, Aldo Leite, Bel Kutner, Vera Holtz, Thales Pan Chacon. Por.



29 de junho de 2012

Naufrágio dos regimes totalitários





O fascínio do mar e o poder em tempos de guerra retratados
no cinema e na pintura.

Por: Iomar Travaglin


Poucas histórias fascinam o público como o do naufrágio do transatlântico Titanic. Ocorrido em 10 de maio de 1912, a tragédia gerou polêmica e no cinema muitas produções ligadas ao assunto foram e ainda hoje são produzidas. Uma delas foi utilizada em plena Segunda Guerra para atacar a Inglaterra.

O épico alemão Titanic, de 1943, possui seu enredo adaptado a mando do chefe da propaganda nazista Joseph Goebbels (1897-1945). O filme mostra um ambicioso empresário que obriga comandantes e oficiais a navegar com o navio em velocidade máxima, no intuito de bater um recorde de viagem, para com isto ganhar credibilidade e vender ações da falida empresa que financiou o luxuoso transatlântico. Todos os personagens são fictícios, mas estão associados à ambição de empresários e lordes ingleses. Segundo a resenha do filme, presente nos extras do DVD, existe uma associação do personagem do empresário com o arquétipo do judeu típico e com a arrogância inglesa na figura dos lordes, temas que a Gestapo gostaria de legitimar através de entretenimento.
Essas associações estão presentes, por exemplo, na cena em que alguns empresários tentam comprar vagas nos botes salva-vidas perante o alemão incorruptível, e quando a dançarina lasciva, também com traços judaicos, beija dois homens que a cortejam.
O iceberg é apenas um suporte na condução da historia que pretendia, utilizando uma situação política, atacar a Inglaterra, principalmente no final inesperado, no qual o empresário é caracterizado como judeu e julgado pela morte de 1.500 pessoas no naufrágio. O filme foi banido pela própria Gestapo quando um cinema onde era exibido foi bombardeado, possivelmente pelos ingleses. Segundo pesquisas históricas, o próprio diretor foi assassinado, por não concordar com algumas exigências da produção, fato encoberto e transformado em um suicídio. Como curiosidade: preste atenção no resgate do homem acusado de roubo e no diamante azul, fatos que James Cameron utilizaria à exaustão no seu Titanic de 1997. Nos extras um raro documentário sobre o transatlântico na época de sua viagem inaugural.
Pouco tempo depois da tragédia, houve nos Estados Unidos da América uma versão muda do naufrágio (1913), e em 1953 foi realizada a superprodução Titanic. Na Inglaterra, A night to remember (1958) é baseado em relatos de sobreviventes e por isso se aproxima do que realmente teria acontecido naquela fatídica meia-noite, quando um iceberg pôs fim à viagem inaugural do navio, causando o desaparecimento de aproximadamente 1.500 pessoas.

Filme nazista no Brasil
Em 1938, um filme germânico com atores brasileiros e alemães, tendo a exploração da borracha e o capitalismo expansionista como tema principal, foi financiado pelo Partido Nacional Socialista. À época, o ministro da propaganda Joseph Goebbels declarou que o filme era "muito valoroso, tanto política quanto artisticamente, numa brilhante realização". O filme chamava-se O inferno verde (Kautschuk, 1938), e teve gravações na Amazônia e nos estúdios Travemünde, em Schleswig-Holstein e Babelsberg, em Berlin. Dirigido por Eduard Von Bosordy, contava com astros de primeira grandeza do cinema alemão, como René Deltgen, Gustav Diessl e o brasileiro José Alcântara. Rodado com imagens documentais, tornou-se um bem-sucedido lançamento em 1938.

O Partido Nacional Socialista, dirigido pelo Terceiro Reich, possuía relações contraditórias com a cultura e entretenimento. Quanto ao Brasil, segundo estudos e descobertas recentes, havia o projeto do nazismo para dominar a América Latina, conservando apenas Argentina, Bolívia e Brasil. Usando nosso país com celeiro do mundo, a força militar nazista contava com o apoio da Argentina, cujo presidente à época, Juan Domingos Perón, se posicionou favorável a Alemanha e ao Füher.

O mar regido por Netuno
Desde o início da civilização, o mar inspirou respeito e medo em quem ousava desafiá-lo. E em várias culturas, deuses surgiram para representar seu poder. Na mitologia grega, o mar é regido por Netuno, principal divindade das águas. Seu símbolo de poder é o tridente, ou lança de três pontas que usava para abalar os rochedos, desencadear ou amainar tempestades. Segundo a tradição, teria criado o cavalo das espumas do mar e era considerado padroeiro das corridas eqüestres.
Acreditava-se na Idade Média que a terra era o centro do universo e os navios que partiam para o mar iriam encontrar grandes cachoeiras que despencariam no infinito. No século XV começaram as grandes navegações, e os habitantes da Península Ibérica foram os que primeiro venceram os medos e partiram às conquistas. Embora haja relatos de exímios navegadores entre povos antigos, como vikings e chineses, os portugueses e espanhóis formalizaram caminhos e acessos a novas culturas.
No inicio daquele século, pequenas embarcações com poucos tripulantes eram denominados baixéis, barcas ou "barchas", batéis, bergantins, caravelas ou pinaças. Em menos de cem anos surgia "a nova caravela", de casco longo, possuindo dois ou três mastros com velas triangulares ou "latinas" que permitiriam manobras ágeis, substituindo as velas quadrangulares ou redondas. A partir do século XVI, os barcos que faziam o roteiro de rotas para as Índias seriam designados naus, nome adotado para grandes navios. Esses grandes navios seriam as carraças dos séculos XVI e XVII e as fragatas do século XVIII. Entre uma carraça (nau) e o galeão, as diferenças mais gritantes estavam na utilização: a primeira, comercial, era mais larga, alta, pesada e pouco armada, enquanto o galeão, mais comprido, era guarnecido com canhões. Os navios usados na navegação eram, no século XVI, caravelas e outras embarcações com capacidade entre 100 e 150 toneladas de carga. Contudo, por ser pouco armadas, tornaram-se presa fácil de piratas e ladrões, obrigando os portugueses a adotarem sistemas de frotas e iniciarem a construção de navios maiores e melhores.
As viagens feitas com navio à vela cruzando oceanos eram consideradas as mais árduas. Viagens a caminho das Índias demoravam em média de seis a oito meses. As viagens ao Brasil, no entanto, eram bem mais curtas. De Lisboa à Bahia, o tempo estimado da viagem era de dois a três meses, para Recife ou Rio de Janeiro poderia representar alguns dias a mais. O fator tempo era importantíssimo; partindo nas épocas certas, quase sempre se evitavam tempestades.
A trilha das Índias, ao contrário, tem um longa história de naufrágios. Em uma obra chamada História trágico-marítima, compilada por Bernardo Gomes de Brito no século XVIII, há relatos dramáticos, que vão desde superlotações, desespero, e afundamentos onde a escolha de botes priorizava os aristocratas e clérigos, deixando, segundo o autor, as "pessoas menos gradas (graduadas)" para os tubarões.

A Barca da Medusa
O quadro a Barca da Medusa representa a tragédia real do navio Medusa, que naufragou perto do litoral do Marrocos. Em 1816 uma fragata francesa comandada por um incompetente capitão, afundou. Este entrou num dos poucos botes salva-vidas, deixando os passageiros, que considerava seus inferiores, abandonados à própria sorte. Segundo historiadores e sobreviventes, houve casos de canibalismo e loucura devido à fome e a longa permanência no mar.
Théodore Géricault (1791-1824), pintor engajado, retratou a tragédia no momento em que os sobreviventes avistam um navio que poderia resgatá-los (Fig.1). Apesar de pouca produção pictórica o pintor influenciou em muito a pintura Romântica do período, e até hoje é referência do movimento. O fotografo Joel Peter Witkin realizou, dentro do seu estilo, o que poderia ser o naufrágio da política norte-americana. Baseado na celebrada obra de Gericault, Witkin criou a sua versão de uma tragédia: a intervenção americana na guerra do Irã (Fig.2). Nela, vemos Bush filho sentado com todos seus dirigentes em um barco semidestruído. Note as lâmpadas na cabeça de Bush, em a alusão de suas "grandes idéias" e sua mão "pousada" sobre Condolezza Rice. Nesta obra, com humor e irreverência, o fotógrafo mostra a influência norte-americana e os erros que uma política autoritária pode cometer.

Saiba mais sobre o filme O Inferno verde
Veja texto completo sobre a foto de Witkin


Cartaz do filme Titanic
Théodore Géricault - A jangada da Medusa, de 1819 (fig.1)

Joel Peter Witkin - Raft of George W. Bush (fig. 2) 

Filmes e Livros sobre o assunto:
Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: M. Fontes, 1996. 584 p. Por.
Paradis perdus l'europe symboliste. Montreal: Flammarion, 1995. 552 p. Fotos. Fra.
Direção Ridley Scott. 1492: a conquista do paraíso. São Paulo: Vídeo Arte do Brasil, 1992. Fita de vídeo/DVD, 150 min., Color. Por, Ing.

Titanic País de origem: Alemanha 
Ano: 1943 
Duração: 85 min
Direção: Herbert Selpin e Werner Klinger


O inferno verde
Título original:Kautschuk
País de origem: Alemanha 
Ano: 1938 
Duração: 104 min
Direção: Eduard von Bosordy

19 de junho de 2012

Os sonhos e delírios de Gothic de Ken Russell

Por Iomar Travaglin


Um dos filmes mais significativos dos anos de 1980 foi Gothic de Ken Russel que inclui imagens oníricas e delírios. Nesta produção o diretor reproduz a história real do encontro de grandes ícones da Cultura Inglesa como o poeta Lord Byron, a escritora Mary e Percy Shelley também escritor e poeta. A história se passa quando do encontro desses personagens em uma mansão suíça onde Byron encontra-se exilado devido a sua conduta livre e afrontas a sociedade. O grupo ainda conta com o médico Polidori que prepara uma biografia do poeta. Significativo e revelador o filme é um libelo ao amor livre e sobressai devido ao que seria a criação de grandes obras literárias como Frankestein e o mito do vampiro que mais tarde Bram Stoker transformaria em Drácula, um dos personagens mais conhecidos da literatura mundial. Todo o cenário e os aposentos da mansão se mostram dentro do termo conhecido como Gótico onde se sobressaem sombras e referencias ritualísticas pagãs. Repare nas pinturas do período e momentos em que a fantasia se sobressai a realidade quando os personagens não sabem se estão em sonho ou acordados. Belo e com imagens fortes o filme mostra a escola Romântica da qual os poetas fazem parte e possui no elenco um forte apoio dramático sobressaindo o personagem de Mary Shelley que ali mostra seu processo criativo na confecção de Frankestein, seu famoso personagem. O filme virou Cult e deve ser visto como entendimento a cultura inglesa em seus mais significativos escritores que segundo estudos teria reininventado o amor livre e o sentido da aventura. Atenção para a referência a obra de Fusili chamada O pesadelo/NIghtmare que em determinado momento do filme se torna real e que é reproduzida no pôster original da produção.


Poster original inglês.
Lord Byron e o Romantismo.
Nascido em uma família nobre Lord George Gordon Byron foi um poeta inglês que se notabilizou pela vida audaciosa e inúmeros casos amorosos que se tornaram escândalos. Seu momento mais lembrado é aquele narrado no filme quando exilado se encontrou com amigos e ai motivou o surgimento de duas obras de peso na literatura inglesa. Ambas inspiradas pelo que consta em sua própria imagem já que o tema do Vampiro seria escrito, segundo Polidori, como um aristocrata que suga sangue humano e por Mary Shelley em Frankestein que num momento de transe veria o belo rosto de Byron se transformar em um monstro depois de uma aposta por ele promovida sobre quem contaria a história de terror mais assustadora. Sua vida reproduz o gênero em que se notabilizou escrevendo obras que ate hoje são lidas com personagens marcantes, rebeldia e grandes paixões. Morreu aos trinta e seis anos lutando pela independência da Grécia contra os turcos.

Thomas Philliops. Lord Byron em traje Albanes.1835.
Ficha Técnica:
Título Original: Gothic
Tempo de Duração: 83 Minutos
Elenco: Gabriel Byrne, Julian Sands, Natasha Richardson
Ano de Lançamento: 1986
Direção: Ken Russel
País: Reino Unido