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26 de janeiro de 2015

Todos os caminhos levam a Sé

Missa campal realizada em 1937 que mostra os primeiros alicerces daquela que seria o marco da grandeza do centro da cidade.
Seria impossível contar quantas pessoas passam diariamente pelo centro de São Paulo e que de algum modo visualizam a Catedral que ali se encontra. Réplica de um estilo antigo que predominou na Europa, a Catedral, não somente no nome, substituiu a igreja relativamente simples que fora construída na época colonial e demolida no início do século XX para que no local um pouco mais acima erigir-se um monumento digno da cidade que crescia vertiginosamente. Casas, prédios e ruas desapareceram para que a arquitetura da nova igreja ou catedral fosse grande o suficiente para abrigar o maior número de praticantes católicos e ao mesmo tempo ser reconhecida como o marco da cidade. Lançados seus alicerces muitas foram as campanhas da Igreja para financiar sua construção que no exagero de detalhes refletia inconscientemente a diversidade de seu povo em cultura social e econômica. Macacos, araras e símbolos tropicais substituíram gárgulas e reis europeus. Alguns nichos, mesmo depois de inaugurada, permanecem vazios querendo talvez mostrar que seu estilo é inacabado, diferencial ou característica de uma cidade que muda radicalmente a cada década. Neste aspecto é uma construção como querendo acompanhar essas mudanças com o elemento do novo ao redor, que não preservado, encontra-se em risco de perder suas características originais. A cidade é assim, grande, austera pomposa e ao mesmo tempo vazia de consciência histórica motivada principalmente pela inercia de seus habitantes que inconscientemente transitam pelas mesmas trilhas de seus ancestrais índios e afrodescendentes.

Os caminhos da cidade levam à Catedral da Sé, que esperemos, volte a simplicidade de uma missa dominical em que todos se reconheciam como paulistanos conscientes de suas origens.

Texto: Iomar Travaglin
Projeto Digital: Tatiane Cornetti



23 de novembro de 2014

Made by... Feito por brasileiros... Para quem?

Texto: Iomar Travaglin
Fotos: Tatiane Cornetti


Durante quase cem anos de sua existência, o complexo do Hospital Matarazzo recebeu milhares de pessoas entre, médicos, enfermeiras, pacientes (pessoas que se restabeleceram pessoas que ali vieram a nascer e outras que ali tiveram seu ultimo suspiro).  Histórias de uma cidade dentro da própria metrópole. Quando desativado como centro de saúde no final dos anos de 1980 foi abandonado e ainda foi palco de atividades artísticas por grupo de teatro que ali realizou um desempenho elogiado e inusitado.  Também artistas anônimos em seus muros e paredes realizaram pinturas e pichações, mas, nada se compara com a exposição Made By... Feito por Brasileiros. Quase um Louvre pela extensão o complexo se assemelha ao monumento francês por salas e mais salas, antes direcionadas a saúde, exibindo hoje obras de arte e efeitos especiais. O que talvez as pessoas não saibam é que o próprio Louvre, antes de ser o centro cultural de hoje, já esteve decadente gerando protestos de intelectuais como Voltaire que em outro contexto acreditava que aquele era antes de tudo um monumento francês apesar de sua origem aristocrática.  Sem entrar em devaneios de comparação, a pergunta maior que se faz é a seguinte: 



O Hospital Matarazzo entregue a sua própria sorte

Falta de cuidado com nosso patrimônio (adaptação no piso mal realizado) 

O que será do complexo Matarazzo depois dessa exposição? Salas inteiras foram transformadas em piscina com infiltramento de água propositado, sua bela escadaria de mármore imersa em água malcheirosa; a estatua do Conde Matarazzo, seu fundador, quebrada; seus outrora jardins devastados e sua capela, transformada em palco herético de uma instalação em meio à representações religiosas de culto católico. Se todo o espaço neste momento da Made by... Transpira decadência e abandono, como a própria exposição evidencia, será que este lugar histórico será preservado? Mesmo com a proposta de construção de um luxuoso hotel e centro de compras, a ausência de uma maquete, detalhe enigmático, o absurdo do destombamento e outras questões nos rementem ao que parece inevitável: mudança drástica da estrutura arquitetônica, ou o que é pior, demolição.


Escadaria em mármore imersa em água malcheirosa



Salas inteiras foram transformadas em piscina com infiltramento 

O descaso da história de um lugar importante na nossa cidade

Exagero? Refletindo sobre o dinheiro que foi gasto para confecção da mostra, a empresa, não brasileira, o apoio de patrocinadores de elevado apelo financeiro, e, irônico ‘feito por brasileiros’ remete a triste constatação do lucro e suas consequências mercadológicas.  Quem conheceu o Hospital quando de seu verdadeiro proposito e atuação e tem respeito pela nossa cultura não deve levar a culpa pelo crime da demolição ou desfiguração pelas mãos de pessoas que infelizmente não entendem que progresso pode ser a revitalização do que é antigo.

Concluímos que a História e as Culturas mundiais possuem um museu como o Louvre porque na França, não aqui, existe verdadeiro domínio de sua identidade e, para isto, conta com apoio de sua classe intelectual e artística.


Jardins devastados em função da exposição



Capela, transformada em palco herético
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Carta aberta realizada pela associação PreservaSP sobre o Hospital Matarazzo www.preservasp.org.br/carta_aberta_hospitalmatarazzo


  

20 de setembro de 2009

Na Praça da Sé, centro da cidade, a Igreja do Carmo testemunha a história de São Paulo

Por: Iomar Travaglin
Fotos: Tatiane Cornetti
Em meio ao barulho e a fuligem do centro de São Paulo uma pequena jóia colonial descansa quase sufocada pelo grande prédio da secretaria da fazenda: A igreja da Ordem terceira do Carmo. Na entrada, a data de construção surpreende 1632, e dentro encontramos um dos últimos exemplares do barroco paulista do período com obras do Padre Jesuino do Monte Carmelo. Nascido em Santos em 1764, Jesuino Francisco de Paula Gusmão mudaria o nome para Jesuino do Monte Carmelo ao seguir a vida religiosa depois de enviuvar em 1793. Foi pintor, arquiteto, escultor, músico, poeta e entalhador, no entanto como padre só rezaria sua primeira missa em 1798 como “ex defectu natalium” expressão em latim que quer dizer “defeito de nascença” por ser mulato. As obras presentes na igreja do Carmo em São Paulo foram realizadas por volta de 1796 e redescobertas por Mario de Andrade em texto publicado em 1942 quando estudou a obra do artista. Mas o achado mais importante viria do próprio Mário que aquela época desconfiou que a pintura do teto ocultasse algo maior já que apenas a lateral apresentava obras do artista. E foi assim que em 2007 foi descoberta no teto abaixo de uma pintura menor uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, com as mãos ao peito e cercada de anjos. Não houve dúvidas, quanto à autoria, quando se analisou o traço do pincel; ali estava um autêntico Jesuino do Monte Carmelo.
Localizada no centro histórico da criação da cidade de São Paulo a igreja do Carmo esteve presente no cotidiano da colônia e do Império onde se firma a visita do então Imperador Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina em 12 de abril de 1846 ocasião em que houve procissão até o Pátio do Colégio. As festas ali realizadas são lembradas no famoso livro de Antonio Egidio Martins, São Paulo Antigo, que narra a seguinte passagem:


“...da igreja do Carmo onde todas as festas eram feitas com muito esmero e capricho, saía antigamente à procissão do Triunfo a percorrer as ruas da cidade carregando as seguintes imagens representando: Jesus no horto, Jesus na prisão, Jesus atado a coluna, Jesus coroado de espinhos, Ecce Homo, Jesus com a cruz as costa e Jesus no calvário...”
(Monteiro, 1978: p. 38).

Essas imagens podem ser vistas hoje no interior da igreja já que desde os anos vinte do século passado já não se realizam as celebres procissões, embora ainda preserve antigas tradições e novenas que atrai grande número de fieis.

A ordem do Carmo criada por Santo Elias em 1594 apresenta três Ordens que são as seguintes: A ordem Primeira é a ordem Carmelitana composta de padres confessos com sede na Rua Martiniano de Carvalho; a Ordem segunda são as das freiras ou irmãs religiosas do Carmelo e a Ordem terceira é aquela pertencente ao irmão carmelitano ou fieis seguidores. Alguns desses seguidores estão na história de nosso país como Pedro Dias Paes Leme, Padre Diogo Antonio Feijó, Raphael Tobias de Aguiar, Amador Bueno da Veiga, Firmino Whitaker, Barão Raymundo Duprat, Condessa Amália Ferreira Matarazzo, Dr. Alfredo Pujol, Barão e Baronesa de São Joaquim, além de famílias tradicionais e eminentes políticos de São Paulo.


Localizada no triângulo histórico da fundação de São Paulo, mais precisamente na antiga esplanada do Carmo enfrente a uma íngreme ladeira hoje conhecida como Avenida Rangel Pestana, o conjunto do Carmo compunha-se originalmente de convento, igreja da Ordem segunda (1594) a igreja atual (1632) e o colégio do Carmo atrás desta última. O convento, a ordem segunda e o colégio foram desapropriados pelo governo do Estado e neste terreno se encontram, hoje, o prédio da Secretaria da fazenda. Demolidos o convento e a igreja da ordem primeira em 1928 tanto os altares assim como as imagens foram transferidos para uma nova capela na Martiniano de Carvalho transformada posteriormente em imponente Igreja.


Desde os primórdios de sua fundação foram sepultados nas dependências das igrejas diversos membros como Bandeirantes, Fundadores, e homens ilustres como Pedro Dias Paes Leme, pai de Fernão Dias Paes Leme. A prática de enterros perdurou até 1867 quando foi adquirido terreno próximo ao cemitério da Consolação na Rua Sergipe. A Ordem realizava os sepultamentos dos Irmãos Terceiros, quando estes expressassem esta vontade em testamento, no interior da capela mor, nos corredores, na nave, no chão, e em praticamente toda a extensão da Igreja. Para isto o soalho era constituído de grandes retângulos de madeira que podiam ser removidos, deixando a descoberto as cavidades onde eram colocados os corpos.


Hoje apenas 51 corpos se encontram no interior da Igreja em cripta construída para este fim, o restante foi transferido para o cemitério.


Estrada de São Paulo pelo caminho do Rio de Janeiro Aquarela de Jean-Baptiste Debret, 1827. LAGO, Pedro Correa do. Iconografia paulistana no século XIX.São Paulo: Metalivros, 1998. http://www.fotoplus.com/dph/info05/index.html

Vista da Igreja do Carmo - 2008

No altar principal o barroco predomina com a imagem da padroeira entre duas colunas com imagens dos santos carmelianos: Santa Teresa e São João da Cruz. Seguindo as laterais encontramos sete magníficos altares menores com imagens dedicadas a paixão de Jesus. O sétimo altar foi construído em 1684 e oferecido pelo então capitão mor e governador da província de São Paulo Pedro Taques de Almeida.

Entre preciosas madeiras e adornos dourados vemos pinturas de Pedro Alexandrino, o moço e Padre Jesuino de Monte Carmelo. Notem a belíssima lâmpada em prata suspensa entre o altar-mor e a nave central. Em toda a igreja luminárias de bronze, castiçais, candeladros e mobiliários em jacarandá da Bahia fazem parte dos tesouros artísticos presentes.

Remanescente raro do período colonial a Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, anteriormente parte de grande complexo religioso, entre o metrô e o grande edifício do Ministério da Fazenda foi testemunha durante 367 anos das mudanças da colônia ao Império e deste, para a grande metrópole chamada São Paulo.


Fachada da Igreja do Carmo - 2008
Detalhes do interior da Igreja do Carmo - 2008
Veja mais fotos:http://picasaweb.google.com.br/tcornetti/IgrejaDaOrdemTerceiraDoCarmo
http://www.preservasp.org.br/forum/index.php/topic,53.0.html

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www.preservasp.org.br

9 de abril de 2009

Por: Tatiane Cornetti


O GLOBO JUVENIL
Um marco nas publicações infanto-juvenis do Brasil


O Globo Juvenil foi lançado em 12 de julho de 1937, no Rio de Janeiro, pelo editor Roberto Marinho, era uma publicação infanto-juvenil com histórias em quadrinhos que a princípio privilegiava o caráter recreativo com seus contos, passatempos, histórias fantásticas, premiações, etc. Teve uma grande importância, pois trazia sessões de conhecimentos gerais, bons costumes, fatores sociais, econômicos, políticos e culturais da época.
Na sua estréia e nos primeiros meses, o tablóide foi editado totalmente com quadrinhos comprados dos Estados Unidos e suas histórias eram adaptadas para a cultura nacionalista, na mesma época em que tanto se insistia nos caminhos autenticamente brasileiros para a solução dos problemas nacionais.
Mas o editor da revista tinha planos bem mais ambiciosos de expansão na área de histórias em quadrinhos. Marinho queria adquirir os direitos dos grandes personagens da King Features Syndicate.

A direção foi entregue a Djalma Sampaio, a quem caberia o cargo de secretário de redação das publicações infanto-juvenis do grupo O Globo. E para auxiliá-lo Sampaio chamou duas promessas do jornalismo e da literatura da época: Antonio Callado e Nelson Rodrigues.

Callado tinha a tarefa de fazer a revisão das histórias em quadrinhos, mas, na prática quem realmente fechava O Globo Juvenil era Nelson Rodrigues e sua função era justamente adaptar e reescrever as histórias provenientes dos quadrinhos estrangeiros.
Com Alceu Penna, um grande ilustrador brasileiro, Nelson Rodrigues fez a versão do clássico O Fantasma de Canterville, em 1938, para os quadrinhos. Seu traço fino e original fez da série um grande sucesso no O Globo Juvenil. Em 1941, produziram a versão de O Mágico de Oz para o tablóide.

Roberto Marinho manteve o formato de O Globo Juvenil até 1954, porém a necessidade de criar novas publicações sempre empolgou o editor do tablóide. Em 1942, é lançada uma versão de O Globo Juvenil (em formato de revista) com a capa colorida e com a qualidade melhor, essa versão passou a ser mensal trazendo histórias completas e circulou até 1962, a partir desse período, Marinho passou a investir em revistas isoladas para cada personagem.

PROJETO GRÁFICO “O GLOBO JUVENIL – 1937”
O Globo Juvenil é um tablóide, no formato aberto de (60 cm de largura por 42 cm de altura) e formato fechado de (30 cm de largura por 42 cm de altura). Com linha editorial voltada para o público infanto-juvenil. Nos dez primeiros exemplares era editado duas vezes por semana (às quartas-feiras e aos sábados).O suporte utilizado para a impressão é o papel jornal. A quantidade de lâminas ou páginas impressas são de 22 páginas (06 coloridas e 16 em preto e branco). O tipo de impressão utilizada era a litográfica, muito utilizada na década de 1930 aqui no Brasil. E podemos destacar a impressão de folhas frente e verso dobrado ao meio, característica de um tablóide ou caderno.As margens são: superior 2,5/ inferior 2,0/ direita 2,5/ esquerda 2,0 (cm), podemos relacionar essa redução das margens, no aumento do campo de composição. Conseqüentemente a mancha gráfica é de 25,5 de largura por 37,5 de altura (cm).O grid do tablóide foi dividido em cinco colunas.

Sua diagramação é, praticamente, no sentido vertical, respeitando toda a estrutura de zonas de interesse (centro ótico, sentido de leitura, etc).




Zonas de visualizações:
1. Primária;
2. Secundária;
3. Morta;
4. Morta;
5. Centro Ótico;
6. Centro Geométrico.












As capas eram ilustradas (ilustração central com legenda) e ricamente decorada com elementos gráficos, além de um espaço utilizado para apresentação da edição (texto).

Devemos destacar que a capa é o primeiro contato com o público. Todos os elementos devem ser tratados com importância, não só a ilustração principal como também a arquitetura do projeto, a escolha do tipo (as letras desenhadas especialmente para cada edição) e os elementos fixos(editorial, preço, assinatura, logotipo, etc.).











O logotipo do tablóide, sempre foi publicado no canto superior esquerdo, com quatro variações de cores nos seus primeiros dez exemplares.
“O GLOBO” era vazado com um retângulo colorido atrás.
“JUVENIL” preenchido com uma outra cor.




A escolha das famílias tipográficas num jornal, revista ou tablóide influi decisivamente no aspecto do mesmo. A decisão deve ser cuidadosa porque antes de ser lido, o impresso é olhado. Devemos também levar em consideração o público-alvo, isso talvez possa ser um fator importante nessa decisão.
No tablóide encontramos uma grande variedade de tipos impressos, juntamente com suas variações (inclinações, força, largura, estilos, etc), muitas vezes desenhados especialmente para a edição.





Os ornamentos gráficos (box, caixa de texto, fios, etc.) devem ser sempre utilizados de acordo com o padrão do projeto gráfico estabelecido. O bom aproveitamento desses elementos pode tornar a aparência do impresso mais agradável. No projeto gráfico do O Globo Juvenil podemos destacar:
Box: sem padronagem, utilizados para destacar algumas matérias;
Fios: nas divisões de pequenos textos, matérias e anúncios.

Os anúncios que aparecem no tablóide são voltados para o público infantil e juvenil, outros sem nenhum relacionamento com o público e muitos exclusivos do próprio tablóide, talvez servindo de uma espécie de curinga para o fechamento das páginas.



Também devemos apontar a utilização de fotografia, em algumas partes das páginas internas, matérias especiais, como por exemplo, a entrevista com o, então, presidente Getúlio Vargas, numa seção que se chamava “No tempo das calças curtas”


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Bibliografia:
SILVA JUNIOR, Gonçalo. A Guerra dos Gibis. São Paulo: Companhia Das Letras, 2004.
CAMARGO, Suzana. (org). A revista no Brasil. São Paulo: Abril, 2000.

Sites:
Almanaque Folha - acessado em 06/2008
Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil30.htm

King Features Syndicate - acessado em 08/2008.
Disponível em: http://www.kingfeatures.com

Palavras-chaves: 1.O Globo Juvenil; 2.Infanto-Juvenil; 3.Projeto Gráfico.
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Um pequeno resumo do trabalho de conclusão de curso apresentado ao Centro Universitário SENAC para obtenção do título de Especialista em Design Gráfico.
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Tatiane Luzia da Costa Cornetti



13 de dezembro de 2008


Fotos: Tatiane Cornetti/ Texto: Iomar Travaglin


A capela e a fonte de Santa Luzia
A Religiosidade e o cotidiano histórico em região central de São Paulo.

“Lucía, viene de luz. La luz es bella por sí y bella resulta a los ojos que la contemplan.”

Com estas palavras, Santiago de la Vorágine, no seu La leyenda Dorada, escrito em 1264, principia a contar a vida de uma das mais queridas e veneradas personalidades glorificadas pela Igreja: a jovem Lucía de Siracusa, popularmente conhecida como Santa Luzia. Seu nome foi associado à proteção aos olhos e a visão (Luzia deriva de luz) e venerado desde o século V através da tradição popular e oralidade. Sua história remonta no final do século IV quando foi vítima das perseguições religiosas perpetradas por Diocleseano contra os chamados cristãos. De família abastada, ao renegar um pretendente foi por ele denunciada, julgada e martirizada, antes, porém havia distribuído seus bens e consagrado seu corpo e virgindade a “serviço de Deus”. Seu martírio foi confirmado historicamente apenas em 1894 quando da descoberta de inscrição em seu túmulo embora tenha sido citada por Dante Alighieri na sua obra máxima A Divina Comédia atribuindo-lhe a “função da graça iluminadora”. Seu dia é comemorado em 13 de dezembro e inúmeros fiéis reúnem-se nas diversas igrejas que tem seu nome para agradecer graças recebidas.

Uma das igrejas, talvez a mais famosa, encontra-se no bairro da Liberdade, mais propriamente na Região Sé, Rua Tabatinguera 104. A igreja do Menino Jesus e de Santa Luzia foi construída e inaugurada no ano de 1901, como diz o frontispício acima da entrada a “espensas* da Exma. Senhora D. Anna Maria de Almeida Lorena Machado”, dona da chácara Tabatinguera, e é considerada uma pequena jóia do estilo Neogótico com belíssimas pinturas e requintado altar. Conta-se que Anna Maria quando em viagem a Europa sobreviveu a um terrível naufrágio e ao chegar à praia lamentou entre os seus pertences perdidos uma Imagem do Menino Jesus muito querida a quem rezou fervorosamente. Ao amanhecer viu surpresa a imagem boiando na praia onde estava e ali fez a promessa de ao voltar ao Brasil construir uma capela em honra dos santos de sua devoção, entre eles Santa Luzia. Os descendentes de Dona Anna Maria, após sua morte, continuaram com a manutenção até por volta de 1920 quando doaram a construção à Cúria Metropolitana onde diversos religiosos, respectivamente: as servas religiosas do Santíssimo Sacramento, os Padres Sacramentinos, Missionários de São Francisco de Salles e por último os padres da Missão Católica Espanhola cuidaram da conservação e manutenção do edifício. Após a saída da Missão Católica e seus cuidados a Capela ficou abandonada até que foi tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo - COMPRESP em 12 de julho de 1995. Em seu interior concebido pelo arquiteto italiano Domingos Delpiano, podemos ver as pinturas executadas pelo pintor-decorador Orestes Sercelli com suas colunas decoradas e belíssimo céu de estrelas acima do altar.


Fachada da Capela do Menino Jesus e Santa Luzia 

Detalhe da fachada - Azulejo

Altar - Sta Luzia

Detalhe do céu de estrelas acima do altar

Detalhe da coluna decorada no altar 

Um dos padrões de ladrilho hidráulico do interior da capela 

Painel em azulejo (Sta. Luzia) na fachada da capela 


Próxima a citada igreja na região em que viveram os condes de Sarzedas, outro ponto de interesse histórico ligado a São Paulo e sob a mítica figura de Santa Luzia é a rua de mesmo nome onde havia uma fonte de águas. Segundo consta foi Dona Anna Maria que permitiu abrir ruas em suas terras no final do século dezenove e possivelmente a Rua Santa Luzia teve nesse momento sua gênese. No entanto a dita fonte é muito anterior a este período e foi palco de um fato pouco conhecido, mas que faz parte do cotidiano da cidade envolvendo uma ilustre moradora. Alberto Rangel, reconhecido biógrafo da paulistana Domitila de Castro Canto e Melo, conta em seu livro sobre a futura Marquesa de Santos, que foi neste lugar que Filício Pinto de Mendonça, seu marido, a flagrou em “colóquio intimo” com Francisco de Assis Lorena, à época futuro sétimo conde de Sarzedas, resultando em tentativa de assassinato do marido contra a esposa proferindo-lhe três facadas. Escândalos à parte, a fonte foi durante muito tempo ponto de encontro da população e suas águas eram associadas à Santa como curativas e milagrosas, idéia provavelmente difundida pela família Lorena que eram seus devotos, pois, como foi dito, a fonte era próxima à casa senhorial, dentro de sua propriedade. No entanto, estudo realizado em 1791 sobre as águas de São Paulo, pelo físico e astrônomo real, Bento Sanches D´Orta, classificou esta fonte como da melhor qualidade, com águas “mais puras, cristalinas e menos ácidas que outras fontes paulistanas” (Sant’anna, 2007, p. 54). Constatada a importância, onde poderíamos encontrar resquícios deste lugar perdido entre as recentes construções da região? O fato é que na Rua Santa Luzia existe uma bela casa, construída em 1924, cuja pequena placa apresenta o lugar onde provavelmente se encontrava a fonte, estancada em 1920 pelo serviço sanitário por ser considerada imprópria ao consumo. É interessante notar que nas crônicas antigas de São Paulo a fonte era ponto de encontro de pessoas de regiões distantes e se verdadeira a informação de Alberto Rangel, o fato acontecido em 1817 com a Marquesa de Santos demonstra a longevidade dessa fonte e seu valor histórico como marco tradicional de sociabilidade na futura metrópole.


Fachada da casa na Rua Sta. Luzia construída em 1924 

Detalhe da casa onde se encontra a fonte de Sta. Luzia 

Jardim da casa onde se encontra a fonte de Sta. Luzia 

Parede em pedra no jardim

Pequena placa onde provavelmente se encontrava a fonte
estancada em 1920 pelo serviço sanitário

Repensar lugares e encontrar marcos históricos é elemento indispensável para entendermos nossa cidade e consequentemente melhorá-la. Em uma época como a nossa cujo patrimônio histórico começa a ser pensado, com um atraso considerável em relação à Europa, a fonte de Santa Luzia assim como a região central com seus monumentos e pontos turísticos, apresenta um leque considerável de resgates no campo religioso, arquitetônico e na historia social como um todo que deveriam ser priorizados. Parodiando a idéia da luz que vem do nome de Santa Luzia quem acende a luz (conhecimento) é o primeiro a iluminar-se.

*Grafia original.
Texto: Iomar Travaglin - E-mail: itravaglin@yahoo.com.br
Fotos: Tatiane Cornetti - E-mail: tati_cornetti@yahoo.com.br

Livros consultados:VORAGINE, Santiago de La. La leyenda dorada. Madrid: Alianza Forma, 1996.
SANT´ANNA, Denise Benuzzi de. Cidade das águas. Usos de rios, córregos, bicas e chafarizes em São Paulo. São Paulo: Editora Senac, 2007.
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Junte-se a nós na defesa do patrimônio histórico, 
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26 de novembro de 2008


Por: Iomar Travaglinitravaglin@yahoo.com.br

A arquitetura e o poder:
O Palacete do Conde de Sarzedas e o Castelinho da Rua Apa.
Texto: Iomar Travaglin
Fotos: Tatiane Cornetti

Na historia da humanidade a arquitetura e as construções foram utilizadas pelos poderosos como ratificação de poder. Mesmo simples as moradias visam o conforto e raramente, salvo poucos estilos, são isentas de ornamentos. No Brasil a chegada da família real portuguesa em 1808 trouxe a idéia de hierarquia e os títulos de nobreza começaram a ditar o molde das construções. Dom João VI e seu sucessor Dom Pedro I distribuíram muitos títulos nobiliárquicos que possuíam a premissa de apaziguar ânimos junto aos colonos enriquecidos e fortalecer a idéia do império Português. A chamada “benesse” dos títulos hierárquicos cedidos aos brasileiros, vinha da tradição lusitana e obedeciam a processos burocráticos que incluíam documentos comprobatórios de mérito e riqueza assim como pagamentos para usufruí-los. Raramente hereditários, o grau máximo era o titulo de Duque, seguido por Marquês, Conde, Visconde e por ultimo Barão. O titulo de Duque quase não saía da família real e Luis Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias, foi uma exceção, assim como as filhas que Dom Pedro teve com a paulistana Domitila de Castro. Segundo historiadores Domitila de Castro por pouco não foi Duquesa de Santa Cruz devido a intervenção de Dona Amélia cujo contrato de casamento incluía o banimento da Marquesa de Santos.

Na aristocracia paulista do Império e da República fazendeiros conhecidos como os Barões do Café construíram belíssimas construções que testemunham o poder de seus ocupantes. Hoje raríssimos exemplares são encontrados intactos e restaurados, normalmente ocupados por órgãos públicos. Uma das mais belas residências, localizada no centro de São Paulo, é o chamado Palacete do Conde de Sarzedas, hoje museu e Centro Cultural do Tribunal de Justiça de São Paulo.



Palacete do Conde de Sarzedas
Museu e Centro Cultural do Tribunal de Justiça de São Paulo

A historia dessa interessante construção em forma de castelo remonta ao final do século dezenove quando a região hoje conhecida como Bairro da Liberdade foi efetivamente povoado. Ali existia a chácara Tabatinguera pertencente à família do Conde de Sarzedas. O registro de posse remonta a Dom Francisco de Assis Lorena, filho de Bernardo Jose de Lorena, este último, governador da Capitania de São Paulo entre 1788 e 1797, sendo também vice-rei da Índia entre 1806 e 1816 e quinto Conde de Sarzedas, título criado e cedido por Felipe IV de Espanha em 1630. Anna Maria de Almeida Lorena, uma de suas moradoras, construiu a conhecida Capela do Menino Jesus e Santa Luzia permitindo também a abertura das Ruas Conselheiro Furtado e Conde de Sarzedas em suas terras. O palacete foi construído por volta de 1893, por um descendente de Dom Bernardo Jose de Lorena; Luis de Lorena Rodrigues Ferreira, quando de seu casamento com a francesa Marie Louise Dellanger sendo habitado pela família até 1939. Após esta data passou do completo abandono à ruína. Em 2001 foi tombado pelo COMPRESP, restaurado e hoje pertence à Fundação Carlos Chagas. Em seu interior é possível ver belíssimos vitrais e requintados trabalhos de entalhe em madeira incluso a escada que vai até a torre onde se imagina a vista de quando foi construído já que se encontra no topo de uma colina.




Palacete do Conde de Sarzedas
Museu e Centro Cultural do Tribunal de Justiça de São Paulo


 

Palacete do Conde de Sarzedas - Porta lateral


 

Palacete do Conde de Sarzedas - Detalhe dos vitral


 

Palacete do Conde de Sarzedas - Ladrilho hidráulico

As visitas são realizadas de segunda a sexta das 10 às 17 horas e a entrada é franca.No museu ali localizado há diversos materiais históricos da revolução de 1932, móveis e documentos raros.



Seguindo a trilhas dos castelos construídos “por amor”, encontramos o não menos aristocrático Castelinho da Rua Brigadeiro, totalmente restaurado da qual falaremos oportunamente e o Castelinho da Rua Apa, aqui já comentado, mas com a novidade de que a União proprietária do imóvel irá finalmente fazer reparos visando sua conservação. A decisão da conservação foi o coroamento de uma árdua luta da associação Preserva São Paulo que entrou com recurso para medidas urgentes de reparos já que o edifício encontra-se em estado critico sustentado apenas pelas paredes. Os exemplos bem sucedidos aqui apresentados, não impedem que baixemos a guarda contra a especulação imobiliária que insiste em ignorar nosso passado destruindo verdadeiras jóias arquitetônicas de nossa cidade.

A mobilização de todos é necessária para que a história da cidade sobreviva nos exemplares remanescentes de valor histórico e arquitetônico, premissa dos países europeus que entendem que a história e a identidade de um povo também são formadas por essas construções.

Veja mais fotos:http://picasaweb.google.com.br/tcornetti/CondeDeSarzedas

Preserva São PauloVisite o site:
www.preservasp.org.br

Museu e Centro Cultural do Tribunal de Justiça do Estado de SPRua Conde de Sarzedas, 100 - Liberdade - São Paulo
Horário de funcionamento de segunda a sexta-feira, das 10 às 17 horas
E-mail: museutj@tj.sp.gov.br