17 de maio de 2011

O poder e a cobiça em grandes interpretações no filme O Leão no inverno

Aspectos da criação na produção histórica e uma nova concepção de música e literatura formando bases para a Modernidade.
Por Iomar Travaglin que dedica à Tatiane Cornetti.


O filme Maria Antonieta foi vaiado na França por supostamente apresentar uma visão Fashion e pessoal da ultima monarca do antigo regime na conturbada situação histórica anterior à Revolução Francesa. No entanto sua diretora, Soffia Coppola, usou da chamada licença poética e acertou no roteiro mostrando uma jovem que no joguete dinástico apresentou-se inadequada ao papel de consorte do rei de um país rival ao seu. Seu pai, o veterano cineasta Francis Ford Coppola em Drácula, baseou-se na literatura traduzindo em imagens a fascinante historia. Neste contexto, criou um figurino que apenas se inspira no cotidiano da Inglaterra do século XIX, realçando e possibilitando um forte apelo dramático. Para compor o vestuário o diretor e a figurinista, Eiko Ishioka, utilizaram, por exemplo, referências do pintor austriaco Gustav Klint (1862-1918) no vestuário do personagem principal com túnicas douradas e símbolos orientais. Como curiosidade sabe-se que Coppola foi inquirido judicialmente pelo governo Húngaro ao mostrar no filme um personagem histórico, herói popular daquele país, como protagonista na perversa história do personagem que renega a Deus pela morte de seu amor. Os exemplos são muitos e abre discussão para visões pessoais criando polêmicas que contradizem o elemento histórico. Neste caso em particular, deve-se ressaltar que o diretor apenas buscou nas imagens o que nas letras o autor da novela, Bram Stoker, realizou quando se inspirou no príncipe Vlad Tepes conhecido como o Empalador, verdadeira associação ao lendário personagem.

 
O inglês Lawrence Harvey ao dirigir o filme Leão no inverno, produzido em 1968, buscou na produção e cenários europeus inspiração para legitimar a história do rei Henrique II e sua família no natal de 1183 onde prevalecem fortes interpretações e acidez nos diálogos. Os personagens, inseridos no imaginário histórico pelas crônicas, apresentam desavenças que partem principalmente da Rainha Eleanor da Aquitânia (Katharine Hepburn). Enquanto o rei prefere o filho mais novo, a Rainha deseja que Ricardo, seu filho favorito, herde o poder. Primeiro filme dos atores Anthony Hopkins e Timothy Dalton, respectivamente, Ricardo Coração de leão um dos mais famosos reis ingleses, conhecido pela bravura e personificação do cavaleiro medieval e Felipe de França preocupado em defender interesses dinásticos. A relação homossexual apresentada não foi comprovada historicamente, mas condiz, em alguns aspectos, com a personalidade e conduta do filho favorito de Eleanor. O ator inglês Peter O´Toole, como o rei, tem neste filme uma de suas melhores interpretações e apesar de respeitado ator teatral e vasta carreira cinematográfica inexplicavelmente nunca foi premiado com um Oscar.

Pôster do filme
Repare na marcante trilha sonora de John Barry e na cena em que Eleanor discute com o filho manipulando suas jóias, aqui objetos de poder, e ao mesmo tempo como isto lhe pesa como mulher. Veja também a cena do encontro entre Ricardo e Felipe misturando repulsa, amor e interesses políticos.


Eleanor, rainha da Europa.
Alienor, Eleonor ou ainda Eleonora, duquesa (1122-1204), era a mais rica princesa de seu tempo. Herdeira do ducado da Aquitania, maior domínio territorial da Europa medieval, compreendia o Poitou, Limousin, Périgord, Quercy, Saintonge e Guienne, era neta de William IX, primeiro e famoso trovador. Galanteador e aventureiro, William era um homem incomum que gostava de prazeres e poesia. Um dos fatos marcantes de sua vida foi o escândalo perpetrado quando “raptou” a esposa do visconde de Chatellerault, apelidada pela corte de dangereuse, perigosa em francês, repudiando sua mulher Filipa de Toulose.


Os pais de Leonor tiveram três filhos: William Aigret, Eleonor e Petronilla. Com a morte do irmão e dos pais em 1137 herdou o imenso ducado, o titulo ducal e também a inteligência e alegria do avô. Bela e inquieta, a duquesa de Aquitânia logo percebeu os jogos do poder e casou-se com Luis VII herdeiro do trono da França. Após acompanhar Luis na Cruzada francesa, fato inédito as mulheres de então, enamorou-se segundo historiadores, de Raymond seu tio, segundo consta, oposto do apático e fraco rei francês. Aliada a Raymond traçou plano para a conquista de Jerusalém que não foi aceito por seu marido levando a Cruzada ao fracasso. Impaciente com a indecisão do marido francês e com duas filhas desse casamento divorciou-se alegando consangüinidade ao papa. Ao contrair segundas núpcias com Henrique Plantageneta, onze anos mais novo, e a quem ajudou a eleger rei da Inglaterra, tornou-se sucessivamente rainha da França e da Inglaterra. Como consorte inglesa teve com Henrique, cinco filhos e três filhas, sendo que o último filho, João, nasceria quando tinha 44 anos. Não suportando a infidelidade do marido, passou a persegui-lo chegando a se debater fisicamente com Rosamund Clifford, a mais famosa de suas amantes. De volta a Aquitânia, transformou sua corte no centro de tudo que era mais refinado e civilizado.


Para distrair seus convivas músicos e malabaristas eram contratados criando um conceito de mecenato e canção à amada, síntese dos trovadores. Por esta época a música era destinada à liturgia, e deve-se a duquesa a idéia inovadora da canção popular e da poesia cavalheiresca. Esse conceito de música, revolucionária para os padrões franceses da época, começou imediatamente a ser aceita socialmente tanto na Inglaterra como na França. Juntamente com sua filha Marie, condessa da Champagne, criou o sistema de “protegé”, uma forma de mecenato e proteção, fazendo surgir assim músicos viajantes que se beneficiavam cantando em troca de alimento e pousada. A seu pedido Chrétien de Troyes, compôs, o romance de Lancelot e Guinevere sendo e ela mesma foi criadora do “código do amor”, contendo 31 artigos. Nesta “corte do amor”, com a ajuda do código da condessa, os homens que possuíam problemas sentimentais eram julgados perante mulheres em uma espécie de tribunal.


Afastada de Henrique, Eleanor incita os filhos contra o pai e estes se voltam contra ele, porem a rebelião fracassa e Eleanor foi aprisionada por Henrique até a morte deste, quinze anos mais tarde. Nesta época três dos filhos de Eleanor já haviam morrido e Ricardo Coração de Leão, o filho favorito, tornou-se herdeiro do trono. Após a morte de Ricardo, em 1199, sucede seu irmão João Sem-Terra (1166-1216). Livre do cativeiro retorna novamente à Aquitânia e retira-se à abadia de Fontewraud fundada por sua mãe. Viveu até os 82 anos, uma idade extraordinária para uma pessoa que viveu na Idade Média, e ai foi sepultada ao lado de Henrique, Ricardo e sua nora Isabelle de Angoulême esposa de João, rei da Inglaterra, e seu filho caçula. No período da Revolução Francesa, quase quinhentos anos após sua morte, o cemitério da abadia foi invadido e os túmulos reais violados perdendo-se assim seus restos mortais. Na efígie de seu túmulo, ainda existente, vemos uma mulher lendo (Fig. 01). Para uma mulher que fez do conhecimento a base do seu poder nada mais justo que seja assim representada perante a eternidade.

Efígie tumular de Eleonor em Fontewrald. (Fig. 01)

Katherine Hepburn
Uma das mais conhecidas e talentosas atrizes da época de ouro do cinema norte americano, Katharine Houghton Hepburn, (Fig.02), teve parte de sua vida contada no recente filme O aviador, de Martin Scorsese, sobre a vida do milionário Howard Hughes com quem teve um relacionamento. Neste filme, Hepburn foi interpretada pela atriz Cate Blanchet, irrepreensível, no papel da atriz de O Leão no inverno. Abaixo um trecho de entrevista da atriz Katharine Hepburn que revela muito de sua personalidade:


Podia ter feito o triplo das coisas que fiz, e sempre com sucesso. Não consegui esgotar todo o meu potencial. É horrível. A vida é que é importante. Dar passeios, a casa, a família. Ser ator é apenas estar à espera que nos dêem com uma torta na cara. Só isso. (...) Nunca leio críticas. Por isso, elas não existem. Nem vejo os filmes que fiz. Não existem. São os meus pecados passados, por assim dizer.
Katharine Hepburn

Sua vasta cinematografia inclui também os clássicos: Levada da breca, de Howard Hawks, produzida em 1938, De repente no último verão de Joseph L. Mankiewicz produzido em 1959 e o drama Longa jornada noite adentro, 1962, da obra de Eugene O´Nell cuja interpretação é considerada pelos especialistas como definitiva.


Katharina Hepburn, década de 1950. (Fig.02)
Bertran de Born e Bernart de Ventadorn, a discórdia e o amor.
Na mitologia grega existe uma personificação da discórdia pela deusa Éris que faz parte do cortejo de marte e é a causadora das guerras mais terríveis. Representada por uma mulher alada de aspecto aterrador teria provocado a Guerra de Tróia e o rapto de Helena ao atirar em meio à festa do casamento de Peleu e Tétis a maça que mot nã ivou o juízo de Páris. Dentro desse conceito sempre houveram pessoas consideradas “semeadoras da discórdia”, uma delas, Bertran de Born (1140-1210). Contemporâneo de Eleonora estava sempre em desavença com parentes e amigos. Incentivando a guerra entre a França e a Inglaterra; seu irmão Constantino era para ele um rival reivindicando a posse da fortuna paterna e o domínio do Castelo de Altaforte. Colocou o filho mais velho da duquesa contra o pai e embora considerado como um dos maiores poetas de seu tempo por Dante Alighieri (1265-1321) foi por este inserido na obra Divina comédia em um dos últimos círculos do inferno, canto XXVIII, vv.118-1422, onde o trovador aparece com a cabeça decepada como uma “lanterna” por haver instigado pai contra filho.


Abaixo um exemplo de sua belicosa poesia:

SERVENTÊS*
Um serventes que em nada falha
E que não me custa uma palha
Campus para dizer com arte
Que irmão ou primo me comparte
Do ovo a ultima migalha,
Mas se depois que minha parte,
Não quero mais a comunalha.

(...)
Debalde, como um espantalho,
Busco barões por todo atalho,
Na vanguarda ou na retaguarda,
Para fundir numa albarda
De bom metal contra a canalha.
Que até os anéis de São Leonardo
São mais rijos do que essa tralha.

Talleyrand não trota nem malha.
Como os demais da sua igualha
Não sabe armar lança nem dardo.
Engorda só, como um Lombardo;
De guardanapo e de toalha
Vai engrossando a pão e lardo:
A boa vida o amortalha.
(...)
Bertran de Born (c. 1140-1210)

Embora usasse a desavença como tema, não era somente a guerra motivo de inspiração, sua poesia belicosa era naquele momento particular. No contraponto, outro poeta seu contemporâneo, Bernart de Ventadorn, escreveu o que na opinião de Augusto de Campos, é um dos mais bonitos poemas de amor já escritos, aqui reproduzido em parte:


Canção*
Ao ver a ave leve mover
Alegre as alas contra a luz,
Que se olvida e deixa colher
Pela doçura que a conduz,
Ah! Tão grande inveja me vem
Desses que venturosos vejo!
È maravilha que o meu ser
Não se dissolva de desejo


(...)
Já que ela não me que valer
E não se move com meus ais,
E nem sequer lhe dá prazer
Que ame, não lhe direi mais,
Parto e abandono todo o bem,
Matou-me e, morto, lhe respondo.
Me vou, pois ela não me quer,
A amargo exílio, não sei onde.
Tristão, não devo mais dizer,
Só sei que vou, não sei aonde.
Calo o meu verso e o meu viver,
Da alegria e do amor me escondo.
Bernart de Ventadorn (c. 1150-1195)

*O poema completo encontra-se no livro de Augusto de Campos.
Permeada de guerras e sentimentos político-religiosos, possui em contrapartida mulheres e homens que, atuantes, produziram grande riqueza social. Se em muitos aspectos essa época é denominada de Idade das Trevas, um estudo criterioso demonstra uma época de transformações inovadoras que é a base do que hoje chamamos de Modernidade.

Pintura medieval retratando um trovador


Ficha Técnica
Título Original: The Lion in Winter
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 134 minutos
Ano de Lançamento (Inglaterra): 1968
Estúdio: Haworth Productions
Distribuição: Embasy Pictures Corporation
Direção: Anthony Harvey
Roteiro: James Goldman
Produção: Martin Poll
Música: John Barry
Direção de Fotografia: Douglas Slocombe
Desenho de Produção: Margaret Furse
Direção de Arte: Peter Murton
Edição: John Bloom


Elenco
Peter O´Toole (Rei Henrique II, da Inglaterra); Katharine Hepburn (Eleanor de Aquitânia); Anthony Hopkins (Príncipe Richard); John Castle (Príncipe Geoffrey); Nigel Terry (Príncipe John) ; Timothy Dalton (Rei Filipe II, da França); Jane Merrow (Princesa Alais) e Nigel Stock (William Marshall)


Livros e filmes sobre o assunto:
CAMPOS, Augusto de. Verso, reverso e controverso. São Paulo: Perspectiva, 1978.
LE GOFF, Jacques. São Luís. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Um comentário:

R. Ruiz disse...

O filme é um exercício de amor ao cinema, tanto de Kate Hepburn, quanto do Peter O'Toole que parece que se perdeu pelos anos 70 em diante. Gostei muito de ver o filme comentado aqui no blog! Valeu Iomar.